segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

CONTABILIDADE DESORGANIZADA

Deposito o último cheque do ano
escrevi nele uma carta
ao ministro das finanças
dizendo que não tem cobertura:
que é o resultado da crise
de valores em que me encontro.

outros terão valores mais altos
e as mãos enterradas em merda
mãos e patas neste lodaçal
passa-me o país pelas mãos
nas folhas dos jornais e tudo
tudo parece ficção.
Guardo as últimas edições
de contos para encadernar
e vão direitinhas para a galeria
dos contemporâneos.

Antes que se tornem clássicos
no pouco tempo que é já amanhã
e ainda me falam do ar
daquela fímbria de ar respirável
dum arco imaginário no céu
quando tudo isso tomba
de borco na irrespirável latrina.

domingo, 27 de dezembro de 2009

UM DIA

um dia havemos de parar o tempo
e registar a invenção
pará-lo a meio do telejornal
e na boca entreaberta do jornalista
anunciar a paragem
um dia havemos de dizer poesia de calções
quem sabe, um dia havemos de matar a morte
e de seguida beber uma cerveja fria.
um dia

sábado, 26 de dezembro de 2009

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

NATAL

Existe um natal rubro no ar límpido
ardendo num enorme tronco ao centro da sala
em combustão lenta dentro de mim.

uma sala cheia de crianças e sonhos por abrir
e outros sonhos de açúcar sobre a mesa
que uma noite longa nos fará deglutir

Os sinos tocam lá fora rasgando o céu gelado
e por dentro do peito acontece a fornalha
nas palavras ecoadas nos copos de vinho

Acontecem nesta noite estrelas à flor da pele
num firmamento de olhos que olham o brilho do olhar
o tal brilho cego de mãos postas a orar.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Ainda...

Ainda com o dia por terminar, vou vagueando na cidade. Há embrulhos que ainda estão incompletos e as pessoas circulam em ritmo acelerado, congestionando as ruas do centro. Tudo numa enorme agitação de sacos com embrulhos e eu alheio a tudo: apenas uma ligeira sensação de embrulhos incompletos na cabeça. Enquanto isso, o ar cinza rubro vislumbra-se entre dois montes de casario. A cidade está cansada e ébria de movimento e de destroços de arvoredos finos e folhagens empapadas no chão da tarde rubra. Rubra de plátanos tisnando as ruas. Dirijo-me a casa aos tais embrulhos que me esperam. Subo num ápice a escadaria de pedra. Entro. A tempestade tinha subtraído a tampa da minha casa, como uma maqueta esventrada e haviam embrulhos nos ares como balões coloridos. A cidade, agora desenhava um céu em tons fauves e subitamente a tensão aliviava-se-me nas temporas.

Instantes #3

Instantes #2

Instantes #1

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

VINTE DE DEZEMBRO

um destes dias
sopram-nos ao ouvido
e há amigos que nos enchem o peito

o céu é de um azul frio
na flor do inverno
e as núvens de algodão doce
colam-se à penumbra da memória
subi quarenta e seis degraus
e agora, na crista do tempo
lanço-me na curvatura da onda audaz.

(escrito com a faca suja de creme do bolo repartido)

Nota do autor: não acredito no tempo, mas a eternidade faz-se de pequenos socalcos.

(s/ título)

a palavra
apenas o som de letras
tilintando ecoando na boca
decreto a lei da linguagem nua
como um corpo ansiando a maré
um poeta já não é
foi soterrado na opulência do papel
amordaçado na caligrafia cerebral

eu canto o corpo desejado
o corpo da escrita como uma mulher nua
onde olhos lascivos desalinham cabelos
e tu a meu lado
escrevendo-me sozinha

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Paisagem com árvores e lago ao centro

O ar em lâminas de gelo corta o fim da tarde
no parque as árvores são plácidas
as suas ramagens como cortinas imóveis
bebem o espelho de água no epicentro da derrocada

eleva-se o cenário da noite
num azul púrpura redondo
e o teu corpo vem sentar-se
nas estrelas de vento.

domingo, 13 de dezembro de 2009

PRIMEIRO POEMA

Como se até agora nada tivesse escrito
lanço-me sobre a folha virgem, palavra gume
consumando o pecado original

a boca sangrando de vida
um fino cordão de dentro do ventre
como se a terra se abrisse inteira

a mão tremendo na busca da palavra
humedece o papel deformando-o
a escrita deforma o corpo fotográfico

opõe-lhe a luz à tinta opaca
que se espalha em camadas
como fresca madrugada
a escrita bebe-se inebriada solidão.

ARQITECTURA COMO ARTE


Agência BES - Altura
2008
Arq. Ana Costa


in Exposição Habitar Portugal 2006/2008
Selecção MAPEI/Ordem dos Arquitectos

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

AMANHÃ

transparentes paisagens tecem-se em mim
balbucio um desejo
o tempo ensinou-me como deve ser precedido de recolhimento e preces
o mágico ofício do barro


Al Berto

Olhar mais além,
sempre além de nós mesmos,
além das palavras meu amigo,
olhar e ver aonde os olhos nunca poderiam ver,
tocar onde mãos nunca ousariam tanger,

mãos e olhos paralelos constroem a geografia das palavras
os olhos conduzindo-as como rebanho irreverente
as mãos trigueiras, de marcas solares,
moldando a marcha do poema,

estas são as paisagens que semeio,
que viverão depois de mim
sobreviverão:
amanhã

CORPO

o sol entra
projecta uma sombra
porque há um corpo a seu lado
imprime no chão um arco de luz
ogival o arco desenha-se
na mão
toco por momentos esse corpo iluminado
no teu corpo nu

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

(s/ título)

Guardo uma concha de espuma no peito
e algas em vez de pulmões,
peixes pequenos, prateados
na orla liquefeita das estações.

Trago mensagens nas palavras
nessa espuma impressa na praia
em finos cordões de sal,
escrita com os dedos do mar.

um esqueleto no horizonte
é um barco,

estrelas do mar
cá na terra,

o azul é de brincar
azul-ar.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

ARQUITECTURA #2 - Ensaio sobre a leveza

ARQUITECTURA #1

Acabei finalmente o projecto e despedi de imediato a engenheira.
Não quero mais peso nas minhas obras!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

CATEDRAIS

Desenho pacientemente um templo em altas paredes
verticais, erguendo minhas mãos à luz, que penetra,
zenital,
nas paredes abrem-se brechas de uma poeira fina,
do cimo etéreo até à profundidade das galerias
subterrâneas.
O misterioso espaço que desenho sulca-me a alma
por instantes, tão breves como o ar ondulante,
por breves instantes de salvação,
condenando outras almas depois de mim,
ao peso imenso dessas paredes opacas na ascensão à luz.

LIVRO DA POBREZA E DA MORTE - terceiro livro (extracto)

1.

Talvez pesadas montanhas atravesse
por duros veios, sozinho com um mineral;
estou a tal profundidade, que não há fim que ver pudesse
nem distância: a proximidade é tudo o que acontece
e toda a proximidade é pedra, afinal.

Não sou ainda entendido em sofrimento,
por isso esta grande escuridão me empequenece;
mas se fores Tu: torna-te pesado, aparece:
que tua inteira mão em mim tenha cumprimento
e eu em ti com o meu relicário sedento.

in O Livro de horas, Rainer Maria Rilke, Ed. Assírio & Alvim, 2009, pag. 281

domingo, 6 de dezembro de 2009

(sem palavras - música portuguesa - atenção ao baterista)

(sem palavras - música portuguesa)

(sem palavras - música portuguesa)

REFLEXÕES

O homem enquanto ser social deve escutar outros homens, seus semelhantes. Também na produção artística o isolamento ou ensimesmamento, pode ser limitador da expressão pessoal e artística.
Partir dessa reflexão profunda do mundo e da vida com a atitude de honestidade, mas de absoluta liberdade é o melhor caminho para criar.

TOO HOT (a cave da cidade)

a cidade das colinas visita-me de novo
sinto a sua pele na minha
e vou esculpindo o poema
ergo andaimes à volta dele
grande nu artístico
nas avenidas da cidade
reconheço outros poemas
outros poetas
lá vai o pessoa-poeta, não funcionário
já passa das nove horas da noite
subindo a avenida
no seu passo decidido, mecânico
e decidido
a gabardina enfunada
como a vela de uma nau
lutando contra a chuva oblíqua
nas ruas fala-se espanhol
por entre a multidão
cruzo-me com artistas
a caminho do oriente
pincelando caligrafias natalícias
a noite desceu-me na boca
desceu o seu manto
e as prostitutas exibem longas pernas
e ligas e meias de malha larga
apertando as coxas de veludo
aqui fora está um frio psicológico
de rachar conventos
desço à cave
onde paredes pintadas de noite
dançam em ritmos sincopados
peço uma garrafa e dois copos
um para cada mão
a música incha-me a alucinação
da penumbra
entram espectadores com casacos de noite
o ar vai aquecendo até ficar sufocante
dum lado e do outro, nas mesas
os corpos desprendem-se do chão
no ritmo oscilatório das cordas
aos batimentos da pele tensa das carótidas
as veias desenhadas no pescoço
do soprador, engrossam
até encher os copos de vinho
tudo dança, tecto e paredes
nas sombras projectadas de flashes

O jazz, dizem,
é um antídoto para a vida monótona:
tonifica
desconstrói
corrói

SUBSTÂNCIAS



Drugs

And all I see is little dots
Some are smeared and some are spots
Feels like a murder but that’s alright
Somebody said there’s too much light
Pull down the shade and it’s alright
It’ll be over in a minute or two.

I’m charged up...don’t put me down
Don’t feel like talking...don’t mess around
I feel mean...i feel o.k.
I’m charged up...electricity

The boys are making a big mess
This makes the girls all start to laugh
I don’t know what they’re talking about
The boys are worried, the girls are shocked
They pick the sound and let it drop
Nobody know what they’re talking about

I’m charged up...I’m kinda wooden
I’m barely moving...i study motion
I study myself...i fooled myself
I’m charged up...it’s pretty intense.
I’m charged up...don’t put me down
Don’t feel like talking...don’t mess around
I feel mean...i feel o.k.
I’m charged up...electricity.

in Fear of Music, Talking Heads, 1979

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

SUITE RÚSTICA

a boca gritou a uma só voz soprano
(as orquestras de espuma vogando)
a casa gritou do quarto de bonecas
(o som oco de árvores percutidas)
o corpo imerso no pólen
(o prelúdio de flores campestres)
a terra deglutindo o sol

DA TERRA

Amar o mar completa a minha vida
com o tacto de um amor imenso.
Amar areia e margem
arrebata-me de júbilo e paixão.
Mas veio o vento e, por momentos,
amargurou o meu corpo, a oscilar.
E está o sol aqui, depois de uns dias
de jardim obscurecido, a beber sombra.
E sei que os átomos zumbem
e dançam como os insectos
ébrios em redor do pólen.

in As Fábulas, Fiama Hasse Pais Brandão

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

MULHER AO CENTRO DA CASA

Uma mulher descansa
exausta do trabalho
solta um lamento, não de prazer
um gemido
a sua vida esbate-se na sombra
da parede baça
a mesa ao centro da casa
está posta e espera
por quem não chega
mas essa espera desenvolve-se
sempre incessante nos dias
da ausência de algúem
que a torna ausente

ela tornou-se no próprio tempo
as espáduas erguem-se como ponteiros
na marcha dos minutos dos dias
e sempre a mesa ao centro
um naco de pão um prato redondo
um sol apagado lá fora
ninguém aparece
adormece

o poema tecendo nas suas mãos
um pano só
no linho da noite.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

ARENA RUBRA

Tenho os dedos doridos do papel
cortados na orla das palavras
tenho música em vez de sede
e uma fome sem verbo
bebo mais uma garrafa
até me rebentarem as águas
da manhã.

Dizem que o sol é excessivo
que mata fora da sombra
o matador bebe mais um copo de sangue
e eu acompanho-o na faena

inclino-me sobre o teu peito
e desenho pacientemente
os contornos de mais um poema
com a língua materna

A CERTAIN RATIO

Passei toda a vida
a fingir que sou eu
que nunca fui outro
a fingir essa possibilidade
improvável
numa matemática sem abrigo
tal como o horizonte imperfeito
da ciência dos homens

e sempre vagueei fora de mim
como se tratasse de um segredo
só meu ouviram
só meu

mas perante a equação resolvida
sem resultado certo: o infinito
diziam confirmo o axioma
de nenhuma certeza porém
tal como o horizonte certo

a fina linha que separa corpo e alma
habita em mim e no outro eu
e como essa impossível ciência
os traz inseparáveis em mim
como falsos siameses.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

DEZEMBRO




Agora não me apetece escrever. Pouso o caderninho de capa preta e a caneta. Pouso a cabeça a um canto da almofada. Dou um pouco de ordem nas pilhas de livros e papéis rabiscados. Abro a janela e deixo dezembro entrar. Com o primeiro dia do mês entra uma ponta de ar frio, espalhando um manto branco, gélido de papel, pelo chão do sótão.
Basta-me ouvir a percussão dos pássaros nas telhas e ver o ar gelado no azul do céu.
São as paisagens que a metereologia oferece.

COBERTURA CONSUMADA

Hoje a engenheira fez um flic flac à retaguarda
e tirou-me um peso de cima.

domingo, 29 de novembro de 2009

DOS MALEFÍCIOS DA LITERATURA

"No meu meio, ensinavam-me que a vida era a fonte da literatura e que a literatura devia ser fiel à vida, fiel à sua verdade. E o meu erro foi precisamente ter-me afastado da vida, ter ido contra a sua verdade. A verdade da vida não se assemelha à sua imagem exterior. A verdade, isto é, a natureza da vida deve ser tal e qual ela é e não de modo diferente. Se me afastei desta verdade foi porque só expus uma série de fenómenos da vida que não podem, como é evidente, reflecti-la correctamente. O resultado é que acabei por seguir apenas por uma falsa estrada, deformando a realidade.
Actualmente, não sei se caminho realmente pela boa via; de qualquer modo quero deixar o mundo literário em plena efervescência e fugir do meu quarto sempre cheio de fumo de tabaco. Os livros que nele se amontoam oprimem-me, ao ponto de me impedirem de respirar. Expõem todas as espécies de verdades, desde a verdade histórica até à verdade do comportamento humano, e eu já não sei que utilidade elas têm. No entanto, elas entravam-me e eu debato-me nas suas redes, vivendo como um insecto apanhado na armadilha da teia de aranha."

in
A Montanha da alma, Gao Xingjian, Ed. Dom Quixote, pag. 25

sábado, 28 de novembro de 2009

DESENHO DIGITAL

Outros pianos #5

Outros pianos #4

Outros pianos #3

Outros pianos #2

OUTROS PIANOS #1

china

um dia a china deteve-se nos meus olhos
com milhões de olhos cintilantes
que viram nas águas prateadas do tejo
outros milhões de pensamentos afogados
represados nessas águas
levei-a a ver as abóbadas bordadas dos jerónimos
pano maior do artesanato da alma lusa
julgando a minha alma que
vinha ela ver a alma de lisboa
não a minha
na partida as naus estavam paradas no estuário
e das paredes brancas de alfama
escorriam pequenas lágrimas de luz.

O MILAGRE DA ROSA

Há dias conheci-te
és muito bela
vista daqui, dos meus olhos cegos
nunca te toquei
nunca nos tocámos
há dias que quase sinto a tua pele
na imensa solidão do ar
se te tocasse talvez eclodisse uma flor:

ontem plantei uma rosa no teu peito,
espero que não seja plastificada pelo tempo.

ELÉCTRICO

Há um desenho meu no blogue de um(a) grande poeta e amiga. Aqui

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

ERIK SATIE

PIANO NU

CIDADE IMAGINADA II

Ouço o crepitar da cidade nas ruas,
pessoas que na sua trajectória
rectilínea, quase perfeita
digo quase na esperança do choque
frontal com destroços de mãos
e pernas e velocidade de ancas
na penumbra dos corpos lançados
na fúria do instante,
libertação de energia
liberação
o sexo na rua é puro: é livre
respira-se a plenos pulmões
o ar transforma-se,
a cidade sublima-se
os corpos abrem como pétalas.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

terça-feira, 24 de novembro de 2009

SOPA DE VIRGULAS

Entre colunas surge um vazio,
Podia ser uma porta de vento
é uma vírgula é uma vírgula
um lapso infinitesimal

uma equação na língua
um patamar sem palavra
um bocejo
um ar, soprado no verso,
um livro por escrever

uma página branca
como uma pomba azul
tão improvável
no céu do poema

uma pena

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

VI

Que dia é hoje?
pouco importa o tempo
relativo
O que importa é estarmos aqui
Cabelos ao vento sobre a praia
espraiada do poema
Aqui deitados na areia,
eu e a minha garrafa contemplando
a lua
A água do mar beija-me os dedos
do pés
do outro lado, na outra margem
os teus cabelos
apertados contra o meu peito de vidro
mais uma onda mergulha-me as pernas
e tu afundas-te, afundas a cabeça
de cabelos circulares
no fundo da minha pele
Que horas são?
É hora do inverno, momento de acertar
a vida desconcerto.
- Não uso relógio - algúem diz.
- Não tenho tempo
Será que o tempo falhou esta praia?
Chocou no farol da noite por sinal
Volto a colocar a garrafa em plano inclinado
bebendo mais um pouco de noite
enquanto os olhos de menino
procuram o sol na maré.

domingo, 22 de novembro de 2009

(sem palavras - Ídolos #3)

(sem palavras - Idolos #2)

(sem palavras - Ídolos #1)

V

O firmamento desce-me até ao chão
da cortina.
Agora vejo à transparência
um projecto de noite.
Por detrás da cortina: o teu corpo
em sombras chinesas,
desenhado a tinta de carne viva,
o ecrã da tua pele em estreia absoluta
ondula em movimentos de braços
e pernas e ancas todo fragilidade
ou realidade ausente.

A arte: sim.
Pode libertar,
ou cegar-nos de vez.

IV

Existem paisagens na terra do poema
entre mim e as palavras cultivadas
nos renques da terra fecunda
mas essa terra arada
é uma ilusão a meus olhos
a terra é magra como papel
branca, suavemente suja
como os punhos da camisa que arrasto
sobre as mesas de café aromáticas

No jazz, um ritmo de várias terras,
junta-se e danca-me no corpo,
Estou possuído pelo balanço de cordas,
na síncope percutiva, na febre do peito
Coltrane lavra em todas as direcções,
noite dentro, em hotéis que são
a minha casa desde sempre
que me perco no som.

III

O que de dentro de mim prevalece
Uma essência, uma rocha,
quase detrito.
Escrito à mão: manuscrito
palavra pausada e calma
num mundo vertigem aflito

Mantenho-me à parte
reflicto
o único caminho é pensar
tudo é efémero mesmo
a dor
E vem o rio e lava o mar
e amanheço sem acordar.

Quando tudo desmorona
a rocha: essa pedra enorme
é uma âncora viva
que me prende ao firmamento.

sábado, 21 de novembro de 2009

II

Luz e sombra
vestígios do invisível
ou visibilidade eterna
vértices de luz
borges cegou e
via-nos com as mãos
nas mãos nas folhas
escurecidas de claridade
há muito que não vejo
as cores na verde copa
das árvores das mãos
desramadas
tenho uma floresta
no ventre que mata
a fome da fome
saciada
tenho e não tenho
nada ou tudo ou frio
no gelo do fogo
no degelo e de novo
a floresta que vem
e que vai mais além
e ondula na câmara escura
da Luz e sombra.

(sem palavras - música de câmara #4)

(sem palavras - música de câmara #3)

(sem palavras - música de câmara #2)

(sem palavras - música de câmara #1)

I

Um som bruto, informe
um gesto bruto
uma forma áspera
de representar o real
o poema surge a
meus olhos toscamente
fabricado
saído das minhas
rudes mãos do

Silêncio

é esse silêncio emudecido
que atravessa a palavra
rude e bruto, áspero
como escamas do meu
corpo salgado
camadas de pele
ressequida por ventos

Oceânicos

de ondas revolvendo
ondas areais
aéreas areais
nessa espessura de
água e areia
a pele purifica-se
o poema de sal
cobre o interior

Total

TIME FOR NOTHING

Tea time
time for tea
oriental leaves, me
time thee
bloody tea
purple red
from my veins
or vine instead
tea for tea
for two
leave me
white tea
black tea
yellow tea
universal watered
yellow river
flowing free

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

TALVEZ

Talvez procure uma fonte,
talvez uma sede
uma fonte que gere um rio
para ser visto
Talvez te procure a ti
e não apareças
Talvez eu não veja
ou tu disfarçes
Talvez eu te encontre
quando partes
Talvez não seja nada
de preocupante
Será que entrarás
de rompante?

ARTE CÍCLICA

Há exposição de arte no museu do ciclismo:
quadros de bicicleta com rodas empenadas
e cavaletes com suas damas montadas
o parque em frente folheia o catálogo
de árvores, numa chávena manguito.

as águas sulfúreas desaguam nos cisnes,
e estes, roxos de volúpia voam em espirais.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Sem palavras - epílogo

Foram dez pequenas estórias da História da Música ocidental.

(sem palavras #10)

(sem palavras #9)

(sem palavras #8)

(sem palavras #7)

AUTO-RETRATO SEM CABEÇA

O ar é branco,
é um enorme elefante
pintado nas paredes
do sexo milenar

um século de luzes
não foi suficiente
para nos afastar
das cavernas

concluo o livro
a capa abate-se
e desfaz-se
sob a língua

o médico receita-me
três dias de vigília
para acordar na água
molhado de sémen.

Corro a maratona
no suor atordoado
da cabeça entre as mãos:
o mundo desviou-se de mim.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

QUINTA-FEIRA

Amanhã vou à cidade ver os barcos.
Pode ser que as tuas mãos acendam uma vela
no meu peito ou desenhem um sulco na pele.

Podes até amarrar-me ao poema,
E dali partir para bem longe,
Perder as graças do mar.

RIOS

Hoje sentei-me na moldura do arade,
e vi a massa aquosa que deslizava
como um espelho ondulado

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

33 RPM

Vivi durante algum tempo,
em frente a uma loja de discos.
Acordava e tomava um pequeno-almoço giratório,
numa rodela de vinyl.


UM DIA

um dia gostaria de desenhar a estrela
que acendes em mim
se a mão me não trair na tremura
e desse momento fazer um poema
de luz enquanto dura
e colocá-lo geometricamente
no teu peito com ternura.

(sem palavras #6)

domingo, 15 de novembro de 2009

(sem palavras #5

(sem palavras #4)

2012

2012 - Cheguei a casa como se tivesse regressado de um planeta de outra galáxia. O que a Ficção Científica nos pode fazer à cabeça.

(sem palavras #3)

(sem palavras #2)

(sem palavras #1)

sábado, 14 de novembro de 2009

(sem palavras)

OCEANOGRAFIA LITORAL

Uma onda de meio metro
acaricia-me o peito e flutuo
no seu dorso macio,
vem depois uma onda de um metro,
a face de encontro à sua parede,
em aspiração marinha, a boca inunda-se,
em grupos as ondas engrossam
enrolam-se nos membros,
nas barbatanas emprestadas.
O mar agita-se e a onda sobe ao metro e meio
de massa corporal submersa,
e megulho por debaixo dela até a respiração
ofegante surgir e os músculos travem uma luta desigual
com a força do oceano.
Por vezes deslizo no teu lábio a uma velocidade
estonteante, desenhando um rasto de espuma no teu corpo.
Surge então uma onda de dois metros ou mais,
encapelada por cima dos olhos erguidos ao céu,
e a embarcação, uma pequena casca, salta-me das mãos,
desenvolvo então um bailado circular, sem ar no pulmão,
espero que a tua mão me alcance,
ansiado pelo teu corpo doirado na toalha, que não avisto,
sinto-me como náufrago, uma coluna de água entra furiosa
na minha alma e lá vem a onda dos três metros de salvação.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

NOITES #1

Ao lado da cama construo um esbelto templo helénico. As colunas de livros aguardam um entablamento imaginário. Espero que a noite não desmorone.

CONVENTOS

Como uma monja que se recolhe, ou uma criança que explora uma torre, subiu as escadas, deteve-se na janela, chegou ao quarto de banho. Ali estava o pavimento verde e a torneira a gotejar. Era um vazio perto do centro da vida; um sótão. As mulheres devem deixar os seus adornos. Ao meio-dia, devem despir-se. Espetou o grampo na almofada e deixou o chapéu amarelo de plumas sobre a cama. Os lençóis passados estendiam-se numa longa faixa branca. A sua cama seria cada vez mais estreita. A vela queimara-se até metade, pois lera até tarde as "Memórias do Barão de Marbot". Lera pela noite dentro, até à retirada de Moscov. Pois o Parlamento funcionava até uma hora tão avançada que Richard insistia em que ela, depois da doença, repousasse sem distúrbios. E, na verdade, preferia ler tranquilamente a retirada de Moscov. Ele sabia-o. De modo que o quarto era um sótão, a cama estreita; e ao ficar ali deitada, a ler, pois sofria de insónia, não podia despojar-se de uma virgindade preservada desde a infância e que lhe aderia ao corpo como uma túnica. Adorável quando menina, chegou, súbitamente um instante - junto ao rio, nos bosques de Clieveden, por exemplo - em que por alguma retracção desse frio espírito, se sentira falhar. E depois, em Constantinopla, e outras vezes mais. Via o que lhe faltava. Não era beleza; não era inteligência. Era essa coisa central, que se comunica; alguma coisa de cálido que quebra a superfície e encrespa o frio contacto de homens e mulheres, ou de mulheres entre si.

in Mrs. Dalloway, Virgínia Woolf, pag. 30-31, Ed. Livros do Brasil

HUMOR - Babi yar

ESTEPES

Shostakovich desenha um imenso arco de sombra,
sob as neves eternas dos gulags.
Um arco que nos traz gelados: mãos e pés,
e uma alma que obstinadamente flutua.

Babi Yar com os seus trinta mil corpos de neve,
repousa na soleira firme da minha porta,
onde a vizinha de cabelos alvos me anuncia
um Largo que nunca mais parece acabar.

As estepes desfilam em reflexos,
no pára-brisas do meu carro,
reflexos de árvores descomunais.

E um alce de hastes ramificadas,
relembra-me na minha mão vasculada,
um punho levemente fechado.

EQUILIBRISMO

Uma engenheira aparece-me em sonhos a construir macaquinhos no sótão. É uma questão de estabilidade.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

SOM

Quando o som desperta,
Gera-se uma pradaria liquefeita,
com pássaros empoleirados
nas linhas de telefone.

Geram-se lagos amplos,
bebendo outros lagos,
e vai crescendo o som
deslizando na água sedosa.

As cascatas desaguam
em rios que por sua vez
retornam à melodia inicial.

No estuário, as densas malhas orquestrais
Dissolvem o que restava do silêncio,
Na boca deste poema banal.

MÚSICA #1

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

MÚSICA

Quando a música navega na cabeça como um barco naufragado.

SONG TO THE SIREN

NOS PLANALTOS CALCÁRIOS

Há quanto tempo a ternura te corrói os dedos apagados,
se tu não fumas e prometeste a ti mesma apagar a fogueira.
Com um copo meio redondo atacas o incêndio,
meio cheio de água para que o fogo encaixe na
metade côncava do meu apagamento.

A floresta há muito tempo definhou, e, com ela,
os planaltos calcários ficaram alvos como a lua,
embora pássaros pretos de bico vermelho,
persistam na colheita das últimas bagas de sangue.

Eclodiram nesse espaço, crateras profundas,
como algares nos poros da tua pele.
As chuvas mornas desenhavam-te
as formas de encontro ao pano húmido da blusa.

Nesse momento, o caminho mais curto
parece ecoar-nos na cabeça como um mapa alucinado.
Deito-me na erva e observo a humidade
translúcida do teu corpo, como se os contornos de dedos
me devolvessem os lábios da carne desejada.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

RADIOACTIVIDADE

CASAS (poema arquitectónico)

Vivo numa casa com oito casas dentro.
Seis estão desocupadas.
Quantas ficam?
Eu vivo no tecto da casa.
As janelas dão directamente para o céu,
como o tal vaso alado onde embarquei um dia,
rumo à cidade das torres gêmeas,
apagadas por uma borracha enorme,
do papel amarrotado da minha alma.

Para além de mim,
existe uma enfermeira e um gato na base da casa:
na banda colorida da sua saia.
Escuto a patética e nada mais se ouve
nos restantes sete oitavos deste poço de almas.

Há outros poemas espalhados pela casa:
outros poetas.
Existem vozes límpidas neste conjunto de casas edificado,
que acordam amanhecendo envoltas em papel
e neblina espessa.

Há poemas circulando na seiva desta árvore de brincar,
onde as tuas mãos um dia vão habitar.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

REMAR

Quando eu ia ao clube de remo,
o rio inchava como uma quilha no lodaçal,
as águas alastravam então e as gaivotas
partiam em voos aleatórios sobre as salinas.

O gemido dos remos contornava os pilares
da velha ponte, em equilíbrio de braços e
pernas e nervos distendidos sob o sol zenital.
Colava-se a camisola à pele,
a pele colando-se à própria pele,
em esforço de músculos rotativos.

A dinâmica das marés em tardes de domingo,
pesava-me no tronco e braços, no plano de água
espelhando a cidadela no bordo do cais.

DÚVIDAS

Pirro desceu à Terra para tentar confirmar a existência do Homem. No café onde entrou havia demasiado ruído de fundo e retornou sem resposta concludente.

CLUSTERS

HOMEM (a propósito dos muitos homens dentro de nós)

Homem-rã
Homem-rato
Homem-cão
Homem-marido
Homem-chifrudo
Homem-homem
Homem muito homem
Homem-mulher
Homem-bomba
Super-homem
Homem-pássaro
Homem-borboleta
Brutamontes
Homem-elefante
Lobisomem
Homem-poeta
Homem-proveta
Homem-peta

sábado, 7 de novembro de 2009

FUNDAMENTO

O rio conduz as águas no trilho do rebanho,
A multidão organiza o curso do tempo,
enquanto o rio retorna à nascente
desapontado com o leito exíguo, minúsculo.

O poeta, comedor de papel,
enrola a pasta sob a língua
e pensa no próximo livro,
que acaba de ser adiado, pela metereologia.

A chuva arrasta os papéis na corrente,
notícias em directo da intempérie,
recortes de sangue nos freixos da margem.

Um silêncio de águas represadas, reprimidas,
vai engordando na baía do ventre,
um fruto: (dizem) o pecado original.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

MÚSICA MATINAL

Sons de aço, martelados,
Eco límpido de savanas,
Os tigres famintos lambem as patas,
As unhas recolhem-se como navalhas,
Catedrais vítreas nos seus olhos,
Cidades de dez milhões,
acordadas ao som do metropolitano,
Os falos de betão apontando ao céu
perfurando o voo das aves,
As filas de tartarugas reluzentes,
avançam e ofuscam os trabalhadores,
Param a cada hesitação das mãos no volante,
O café fumega denso sobre o rio,
A empregada ajeita a alça do soutien
e enfia-me um donut no indicador:
um casamento improvável às 9h de doçura.

"Gebet" - Mörike Lieder - Hugo Wolf

ÀS VEZES É BOM DESCER À TERRA

"LXXI
Quanto mais o homem cultiva as artes, menos se entesa.
Cria-se um divórcio mais sensível entre o espírito e o bruto.
Apenas o bruto se entesa bem e a fornicação é o lirismo
do povo.
Fornicar é aspirar a entrar num outro, e o artista nunca sai de
si próprio.
Esqueci-me do nome daquela porca... Ah! bah! Hei-de reencontrá-lo
no dia do juízo final
A música dá a ideia do espaço.
Todas as artes, mais ou menos; pois elas são número e o número é uma
tradução do espaço.
Querer todos os dias ser o maior dos homens!"

in O Meu Coração a Nu, Charles Baudelaire, Guimarães Editores, 1988

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

MARILYN

PARQUE NATURAL

Tenho pouco a dizer,
Tão pouco que pareço vazio,
que pareço louco,
de tão pouco te ver.

Esqueci-me do vento,
De que ar movimento,
é estar enfunado,
em forma de quilha, empinado.

Passo os dias no parque,
a regar pássaros,
a comer raízes,
colho os pomos e o ventre.

Estou ausente de mim,
mesmo quando me abres a terra,
e me tocas na pele com a lâmina,
cintilas, como gota rubra no peito.

E escavas adentro de mim,
mais fundo, além do abismo,
do fogo, do breve sismo,
do tremor da mão.

Um filho no leito,
dorme alheio, num corpo plácido
sonhando nas mãos em gesto ácido,
no mundo futuro repousa o veneno.

Não tenho sono, não durmo,
Deambulo na noite quase nu,
abro a janela, pinto paredes
roseas da tua carne na minha.

Só escrevo de noite,
Só escrevo de dia,
de Outono ou Inverno,
ou nas chamas do Inferno.

Ardo nas páginas nocturnas,
quase chama, quase frio.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

(s/ título)

Pouso no copo
os meus lábios de vinho,
ao de leve sobre os teus.
Pouso a mão,
no seio da tua mão,
no cetim alinhavado
dos teus ombros.
Mais tarde ou mais cedo,
chegarás a tempo...

FORMALISMO

Formas lúcidas:
Um seio, uma mão,
o braço de prata.
Formas lúdicas:
A pele, uma bola,
um corpo jogado
ao eixo.
Formas lúbricas:
um septo, uma cratera de fogo,
lábios afastados.
A síntese destas geometrias:
o hemisfério da bala disparada.

BUENOS AIRES EN MI CABEZA

ILFORD

Ontem descobri na minha carteira um papel velho, misturado com cartões, pedaços de identidade, algumas fotografias deformadas na bordadura de renda.
O papel dizia qualquer coisa imperceptível, transportada dum tempo incerto: pela primeira vez pensei ser o tempo certo para escrever as memórias.
Voltei a colocar o papel amarrotado no separador da carteira.
Pensei: uma fotografia a preto e branco pode levar-nos intimamente a uma labareda da alma esquecida.

domingo, 1 de novembro de 2009

CAPA

As Paisagens, tal como eu previa autonomizaram-se. Ganharam fôlego, encheram o peito de ar. Já respiram em pulmões plenos. Agora só precisam de uma casca, digo, uma Capa.

A Capa que foi mandada fazer por medida está a ser alinhavada, antes de costurada e pronta a vestir. Vai ficar bonita (espero!), bonita e resistente às intempéries: uma capa para as quatro estações.

Obrigado Anabela e bom trabalho!

JORGE DE SENA

Ontem 1 de Novembro, em Lisboa, no CCB houve indícios de Sinais de Fogo.

sábado, 31 de outubro de 2009

UMA PÉROLA (no coração)

SÁBADOS

Há um fio que prende a janela de sótão,
um carro que passa lá fora,
um apito de sábado no jornal sobre a mesa,
há uma névoa mortal que me envolve a cabeça.

Existe uma manhã nos flocos cereais
um torpor no corpo bebido
mais uma aresta da minha avenida
que tive ontem percorrida.

e antes de ontem,
a pé ou de fugida
todos os dias

e hoje imóvel
me detenho inteiro
com tal torpor verdadeiro.

DIG LAZARUS! DIG

as palavras cavam
um precipício de paredes
doiradas
cavam bem fundo
nos poços da memória
em busca de um fundamento
de uma razão
ou o simples pulsar do coração
as palavras são rochedos
na aresta da maré nua.

Amanhã, 1 Novembro, Cine-teatro de Alcobaça

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

NAVIO DE ESPELHOS (II)

FINAL DE UMA ODE

Acontece assim: tiro as pernas do balcão de onde via um sol de inverno se pondo no Tejo e saio de fininho dolorosamente dobradas as costas e segurando o queixo e a boca com uma das mãos. Sacudo a cabeça e o tronco incontrolavelmente, mas de maneira curta, curta, entendem? Eu estava dando gargalhadinhas e agora estou sofrendo nosso próximo falecimento, minhas gargalhadinhas evoluíram para um sofrimento meio nojento, meio ocasional, sinto um dó extremo do rato que se fere no porão, ai que outra dor súbita, ai que estranheza e que lusitano torpor me atira de braços abertos sobre as ripas do cais ou do palco ou do quartinho. Quisera dividir o corpo em heterônimos - medito aqui no chão, imóvel tóxico do tempo.

Ana Cristina César

in Poesia Brasileira do Sec. XX, pag. 264-265, Ed. Antígona, 2002

A LENDA DO CABOCLO

MARGEM (aos observadores atentos de rios)

Eu sento-me na minha margem,
onde ninguém passa,
sentado e quieto como as pedras
deste ribeiro da vida que observo.

Sem que ninguém se aperceba
que o rio não traz água,
que a secura também é um leito
onde sozinho me vai desaguar.

INFLUENZA

Não sei ainda se ficarei imune a Bolano, a Caim e à Bíblia.
Continuo a ler a biografia de Gabo.

PIANO

Esta manhã sentia ainda as teclas do piano debaixo da pele
e como isso te provocava desconforto nos dedos.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

TÚNEL DE VÔO

Hoje entrou-me um pombo
na alma.
Atravessou-me o portal
dos olhos.
(em forma de abóbada
de berço)
Os cães, ao sentir tal ser esvoaçante,
anicharam o seu corpo quente
nas omaplatas.
Através desse portal avisto
o universo inteiro:

montanhas de lixo

rios com portagem

poços de chuva

gente veloz

caixas de papel

corpos de sombra

A felicidade deve ter-me visitado,
em forma de pássaro.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

COVERS #04 - UNKNOWN PLEASURES

HEART AND SOUL (One will burn)

Instincts that can still betray us,
A journey that leads to the sun,
Soulless and bent on destruction,
A struggle between right and wrong.
You take my place in the showdown,
I'll observe with a pitiful eye,
I'll humbly ask for forgiveness,
A request well beyond you and I.

Heart and soul, one will burn.
Heart and soul, one will burn.

An abyss that laughs at creation,
A circus complete with all fools,
Foundations that lasted the ages,
Then ripped apart at their roots.
Beyond all this good is the terror,
The grip of a mercenary hand,
When savagery turns all good reason,
There's no turning back, no last stand.

Heart and soul, one will burn.
Heart and soul, one will burn.

Existence well what does it matter?
I exist on the best terms I can.
The past is now part of my future,
The present is well out of hand.
The present is well out of hand.

Heart and soul, one will burn.
Heart and soul, one will burn.
One will burn, one will burn.
Heart and soul, one will burn.

in "Closer", Joy Division, lyrics by Ian Curtis

terça-feira, 27 de outubro de 2009

COVERS #03

COVERS #02

COVERS #01

(s/ título)

Até onde me levarão as paisagens?
Serão a floresta lúcida?
Ou uma alma adiada?
Interrogo-me,
Deixarei de existir,
depois de vertida a tinta sobre o papel?
Ou será tudo isto inútil?
A anunciada inutilidade da arte
consumar-se-à ao toque dos dedos
do leitor sobre a página?
O papel, esse, continua imaculado,
suspenso dos precipícios dos homens.
Que geografia absurda para o desencontro.
Não conhecerei os meus leitores, jamais.
E no entanto essa impossibilidade
constrói o ventre do poema.

ARTE CONCRETA

O dia nasceu-me no bolso
da camisa,
há amigos que me visitam sempre,
quando a luz se extingue.
Uma amiga disse-me um dia,
ter sonhos em forma de Arte.
A única arte que lhe conheci,
na altura, revelou-se nas garrafas
que guardava debaixo da cama:
era uma sede imensa de infinito.

Hoje bebo dessas garrafas vazias,
quando me visita a tristeza.
Mas ela já não me visita.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

NO TEU OLHAR

No teu olhar existe sal,
No teu olhar existem barcos,
Existem sóis,
Existe a luz,
Existem outros olhos,
que a escrita dos meus livros traduz,
No teu olhar existe o meu,
E outras coisas por explicar,
No teu olhar existe o mar.

OUVE

Havia mãos sobre a mesa,
discursando,
sobrepondo-se aos pássaros do parque.
Havia sistemas complexos,
naquela tarde.
Havia arte nos teus lábios rubros.
Havia flores no jardim
e chá sobre a mesa.
Havia palavras na doçura das tuas mãos.

BRAD

dia vinte e dois de outubro
do ano de dois mil e nove,
poema breve,
escrito com a ponta dos dedos,
o monitor bem à minha frente,
percutindo dedo e tecla,
numa maquinação crepuscular,
o fogo irradiando da cabeça,
ígnea,
os olhos enevoados,
brad mehldau na cabeça,
o som do piano em ecos
de oitavas em cascata,
o parque nas minhas costas,
enche-me o quotidiano
de arvoredos, densos,
florestais.
os barcos remando no lago
enchem-se de peixes fantásticos
e crianças atiram bolas de pão
aos pombos.

ÚLTIMA HORA

Costa oeste invadida
Stop
Vasos de guerra,
em forma de pevide,
avançam em direcção à praia.
Avançam e recuam:
bizarro.
Alguns são engolidos pelas vagas.
Stop

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

(s/ título)

A casa era pobre:
sobre a mesa,
só existia um poema.
À vez, cada verso
alimentava uma boca.
Nasci nessa casa,
onde um sol de oiro,
vinha muito cedo,
iluminar a página branca,
na raiz do dia.

PALAVRAS (a uma amiga)

árvore
verde
com
laranjas

ave de fogo
no ombro
incêndio
escombro

terra

terra


rio terno
água
de inverno

sol
que baste
q b

Olê

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Partes. Como o tempo que passa.
Sem regresso possível, sem demora.
E foi há tão pouco: uma hora.
Que passei por ti na praça.

Com o tempo esqueço-te,
Mas voltas e voltas,
no meu sonho, suspenso no ar
que o tempo de voltares,
não mais vai chegar.

SUSSURRO

Quando me falas baixinho,
escuto pérolas rolando na tua pele,
Esse sussurro alimenta-me
as noites inteiras de esperança.

SILÊNCIO

terça-feira, 20 de outubro de 2009

LIVRO

A pouco e pouco o livro sai-me das mãos:
os dedos doridos.
Primeiro em círculos concêntricos,
as outras mãos, na boca da página,
bebem-me as palavras:
constroi-se um sonho na boca dos outros.
Estarei a sair de dentro de mim?
Um universo inteiro, desconhecido
e atento entra-me casa adentro.
Serei um abrigo imaginado,
um templo de luz.

domingo, 18 de outubro de 2009

LMN

"Os dedos com que me tocaste
persistem sob a pele,
onde a memória os move"

Luís Miguel Nava

SERÃO MUSICAL

Uma a uma as linhas vão-me saindo das veias,
palavras amarrotadas por uma luz que cega.

Duas ou três vezes por noite acendo o candeeiro,
procuro o papel e vomito as palavras ruminadas.

A luz apaga-se na voz, adormecida.
O teu corpo abre uma cratera de vida,
no meu corpo, eu queria viajar na cidade,
nos túneis das palavras que me disseste,
não te quero esta noite, nunca mais.

Outra vez acendo a cabeça de prata,
uma fome de ascender à montanha do mal,
uma lâmina no cume, reluzente,
abraça o teu tronco de sangue,
a nudez da noite pode completar,
a sinfonia da solidão.

FIM DA ÉPOCA BALNEAR

Quando encostavas as mãos no meu peito,
a onda era mais alta, de uma espuma doce.
Ali na praia tudo parecia embarcar,
até o vento te soprava até mim.

Agora caminho no areal e vejo um reflexo surdo,
estendo-me na duna e espero pássaros,
aves enormes pincelando sombras aleatórias.
Espero a minha própria sombra à beira-mar.

NAVIO DE ESPELHOS



O navio de espelhos
não navega, cavalga

Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível

Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos

Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele

Os armadores não amam
a sua rota clara

(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)

Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga

O seu porão traz nada
nada leva à partida

Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta

E no mastro espelhado
uma espécie de porta

Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto

A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto

Quando um se revolta
há dez mil insurrectos

(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)

E quando um deles ála
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo

Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)

Do princípio do mundo
até ao fim do mundo

Mario Cesariny

Mario Cesariny

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

REGRAR

Escrever com regras,
Digo-vos, regras são precisas,
escrevo sobre tudo,
e sobre o vazio.
Sobre homens e mulheres
e sobre o frio.
Sobre a vida e a noite
e como os dias me escolhem,
o melhor poema.

A regra é escrever,
quando me apetecer,
a toda a hora,
todo o dia, desde a madrugada
até anoitecer.
Sou homem regrado,
de não ter regra nenhuma,
tenho uma semente de liberdade,
um puro sangue, que me cavalga nas veias,
com regras é claro: dois coices no ar,
sou mesmo uma freira.

FOME

Na minha rua existem casas,
A minha está elevada acima dela.
Paira no ar como um balão.
Tenho de subir sessenta e oito degraus
para aceder ao céu, à minha porta.

À noite emergem do esgoto os ratos.
De esgoto em esgoto os ratos
avançam e a lua resplandece.
Três homens, três, de luvas
enlutados, conduzem um pequeno
carro de mão, trazendo pela trela
o pequeno cão.

Abrem um a um os contentores,
libertam o lixo e seus vapores.
Montam um esplanada com chapéu de noite
e remexem em sacos, pilhas, maravilhas,
couves-flor, cadeiras de baloiço,
ferros a vapor e separam restos,
organizam tudo, antes da partida.

E eu, no meu apartamento,
covil suspenso no ar,
a seis metros da rua,
faço disso poesia,
dessa fome a meus pés,
descalça na noite fria.

PALAVRAS

Trouxeste no saco,
palavras bonitas,
minúsculas e belas.
Agora voam no ar,
de todos os tamanhos,
sopradas por vírgulas,
como rebanhos.

Palavras leves,
como o sonho,
breves como chuva,
redondas como vinho,
da tua uva.

DIA

A luz insuportável.
Talvez tenha bebido
demasiada noite.
A garrafa está meia,
esqueci metade
da minha vida,
nesse meio vazio
do vaso vertido.
O dia nasceu,
com ele renasço,
a boca cansada,
a língua adormecida,
porém.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

SOUVENIR

em todos os empregos que tive
são sempre as merdas burocráticas
que dão cabo de mim.
as horas que gasto a fazer relatórios
as horas que gasto
a preencher as horas que gasto
a fazer relatórios
as horas que gasto
a preencher as horas que gasto
a preencher as horas que gasto
num ciclo infinito
que na prática me faria
nunca parar de justificar horas
se não fosse
o teorema de Cauchy

no Blog Tolan

JORGE LUIS BORGES

GUME

Superfície cortante no caminho.
A aresta por onde ando,
exige equilíbrio absoluto,
silêncio absoluto.

Qualquer desvio de rota
compromete a imagem no espelho.
Os estilhaços de espuma
cortam ou recortam a onda.

Dá-me a tua mão,
a tua areia de mel,
o teu corpo todo.

Descansa o teu tempo
no meu oceano de papel.
Abro-te um livro de água.

JLB

Borges acordou deitado a meu lado,
acompanhou-me nesta segunda-feira,
de casa para o trabalho, acordado e lúcido,
um cego incha-nos os sentidos,
ficamos com a pele arrepiada.

Ele olha as ruas da cidade
como ductos nostálgicos,
ouve-se um bandoneon,
transporta Buenos Aires nos poros,
eu fico a escutar a melodia,
como se nunca a cascata de som
me tivesse visitado: Astor.

Queria que me visitasses,
assim, nalguns dias,
nas segundas-feiras:
serei cego como tu.
Veremos.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

MAR DA PALHA OU LÁ PERTO

Aves férreas,
metálicamente brancas,
descrevem um rio.
Voam doidas no estuário,
por entre os galhos
da ponte imponente.
Suspensas dos braços
do senhor cristo-rei,
defecam verticalmente no tejo.
A merda penetra nas águas profundas,
como uma seta na corrente.

Nas margens ergue-se o casario,
alucinado por carros velozes.
Tenho um air-bag na cabeça,
só não sei quando vai rebentar.
Toda a minha vida é um acidente,
sem pronto-socorro.

As aves reentram no meu sonho,
cagam-me de novo na cabeça.
As águas lodosas do rio,
entram nos ministérios.
- Eu vi ministros com pés de barro.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

BEETHOVEN

Comprei um pacote espesso,
com as nove sinfonias.
Vou ficar a ouvir pela noite dentro.
Pode ser que pela manhã,
me chegue a Alegria (9ª op. 125)

CALOR

Ao longo da rua dispo a miragem,
O calor desnuda-me o corpo,
a carne envolta em água,
um cambalear, uma vertigem.

O fogo de outubro,
do outono em mim,
ou fora de mim,
o asfalto em chamas.

Os pés colam-se ao chão.
Estou imóvel com o plano do papel
ao nível da vista, e escrevo:
a cidade dos corpos ternos.

domingo, 11 de outubro de 2009

JOGO

O centro dos dedos radiais,
a mão tocando levemente
o triângulo da pele,
Entre as pernas,
toco-te o âmago da escrita.
Ponto final.

Uma vírgula surge então,
despenteada no ventre redondo.
Uma língua descontrolada
e ofegante reproduz-se
dentro da boca oval.
A língua desenrola-se
e o ventre emudece.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

SONOS Y MEMÓRIA IV

Heiner Goebbels

SONOS Y MEMÓRIA

Brecht

SONOS Y MEMÓRIA II

Weill

SONOS Y MEMORIA

Shostakovich

CONCURSO

Enviei os meus papéis,
enrolados num cordel,
qual Camões, com tal cuidado,
afastados do plano de água.
Não fora molharem-se as folhas,
duma escrita marginal,
sem margens nem caudal.

Concorri como da Ponte,
para salvar tal manuscrito,
como água para a sede
eu bebi palavras loucas,
de mil e tantas bocas,
de mil e uma penas,
julgando escrever poemas.

O resultado já se sabe,
Na cauda vou ficar,
Pois ao escrever tanta merda,
O juri não vai suportar.

Lá me vem à cabeça o Bocage,
outro fiel companheiro,
destes negócios de trampa,
do buraco de ser último,
se fez enfim o primeiro.

(escrito em Caldas da Rainha numa alucinação de águas termais - Outubro 2009)

domingo, 4 de outubro de 2009

PAPÉIS

As páginas amarelas da vida,
assaltam-me os sonhos.
Durmo de dia em razão do medo,
do escuro.
Deitado na cama,
os sapatos colados aos pés,
leitosos.
Uma luz vertical atravessa-me
a face ausente, sonhada.
O mundo desabou ontem,
com a estante dos livros.
A sala vazia inundou-se de folhas,
de um outono avermelhado.
Coloco o meu corpo num canto neutro,
redondo.
Tenho um livro colado ao céu-da-boca,
e pastagens edificadas na terra húmida.

APPLE TREE

Apple tree, apple tree,

What else can you be?

The fruit is juicy,

The soil is free,

The sky above,

Staring at me.

Apple tree, apple tree,

Golden fruit, round and red,

as round as it can be,

Take my soul

to your earthly bed.


in Northern forest, English poems

Paulo Correia 2006

CRANE

O MELHOR DO HOMEM

"...Porém, os homens trabalham à sombra de um engano. O melhor do homem não tarda a ser cultivado no solo para adubo."

in Onde vivi e para que vivi, Henry David Thoreau, Edições Quasi, 2008

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

PRIMEIRA IMAGEM


IMG - 01

Cresce-me uma neve macia na pele.

O POETA

O poeta chega exausto,
de tanto caminhar,
na estrada de pó,
na poeira do sonho.
Chega com pérolas grossas
de água na fronte.
Procura uma fonte,
uma água, uma sede.
O poeta que chega sempre,
parte invariavelmente de novo.
Em busca de uma geografia
de palavras improváveis.
Impossíveis.
Há dias em que as palavras
me saem das veias,
como pássaros purpúreos.
Estou cansado deste voo circular,
que se liberta da humidade matinal.
O poeta tem as mãos sujas,
da sombra dos dias.
O poeta cresce como erva daninha,
nos quintais.
O seu peito nu,
acolhe um coração fraco,
de corda.
Feito de ruas estreitas,
medievais, num tempo antigo
e lento: arrítmico.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

DECLARAÇÃO

Estou loucamente apaixonado,
pelo teu IRS
Sinto até prurido no reembolso,
das tuas nádegas.
Só irei à repartição,
para me sentar na tua calculadora.
E sentir o volume excessivo
da coima que me ofereces.
Quando te sentares
no meu rendimento,
diminuirá a tua fortuna.
O prazo de te entregar
expirou.
E tu expiras de prazer
no expediente.

O COBRIDOR

À entrada do metro está o cobridor de damas
e cavalheiros
de pé perna cruzada a coçar os testículos
e a fumar para o chão em escarros
pouco límpidos.
O metro pede que chova em cima
do cobridor
que encena a sua rábula cinéfila
e leva aos tomates uma estranha fome
de afecto,
melancólica.
Já viajei de metro
e eu próprio
já supus que nos meus testículos
o mundo vinha adormecer
com as mãos suadas.
Às vezes
trocávamos de papel,
e ninguém sabia quem cobria quem,
cobertos éramos todos
por uma tristeza
austera
que o metro punha no ar
irrespirável.
Hoje, tomates são só de importação ou virtuais.
E os cobridores
uma espécie em vias de extinção
na esquina fluorescente do dia descaído
e na cabeça da noite que já nem dá por nada.

Armando Silva Carvalho, Lisboa,

Quetzal Editores, 1999





































terça-feira, 29 de setembro de 2009

NOTA IMPORTANTE

Nota de fecho de edição.
Paisagens de papel não é poesia.
Qualquer semelhança com a realidade,
é pura literatura.
Esta escrita impura vai ser encerrada.
Deve ser lida de pernas pró ar,
cabelos ao vento, mãos na terra,
sol na moleira,
e muita doideira.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Post Scriptum

O povo votou. Exprimiu a sua vontade clara e inequívoca.
O país amanheceu cor-de-rosa desmaiado e laranja clarinho com as outras cores do espectro solar bem representadas. Alguns raios de sol tornaram-se mais nítidos. Os portugueses parecem ter afirmado que estão fartos do centro e das suas propostas. Assim deslocaram as suas opções de voto para a periferia. À esquerda e à direita engrossaram as fileiras do descontentamento.
O povo voltou a confirmar uma orientação política para os destinos do seu país, mas não com a mesma clareza de antes. Parecem recomendar mais debate e humildade a quem decide. Resta saber se os actores a quem foi conferido o papel difícil de consensos, saberão interpretar os sinais desta pequena mudança. Porque é disso que se trata.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Portimão

Philip Glass rasga-me um Grand Canyon
nas fissuras dos dedos, impressas no frio.
Aconselharam-me um creme gordo
para a vida gretada.
E surge-me o Guadiana,
que engorda a olhos vistos,
ladeando a planície trigueira.
Desagua no maior lago da península,
ali pr'os lados de Marrocos.
Sou um mouro, transfigurado é certo: polido.
Não como o Aleixo,
que tinha mãos ásperas da poesia.
Este livro... construo-o sobre as ruínas
dos pesqueiros sorvidos,
do Arade cansado,
dos seus suores de maré baixa.
A ponte ergue-se sobre o rio,
como a tal torre em Paris:
feita do mesmo aço rendilhado.
A Casa Inglesa invade-me os Natais,
onde o jogo de xadrez me permite
o sacrifício das figuras com peões solitários.
Talhos de sal esquartelados no leito
dessa terra húmida, sulfúrea.
Terra de sóis.
Eu vivi aqui neste canto do barlavento,
ninguém falava a mesma língua.
Entreguei-me à babilónia,
sinto-me em casa em qualquer lado.
Mas o sul é o meu lar, o meu mar,
a minha raiz nua de figueira,
lambendo a terra.

Caldas da Rainha, Setembro de 2009


segunda-feira, 21 de setembro de 2009

boca incontinente

que é isto esta escrita em jacto constante torneira aberta onde se misturam pão oiro e terra de fogo falta cantá-la em terra queimada e almas cicatrizadas e paisagens de cimento concreto administradas com um cuidado maternal esquecido fumo as palavras e espero visões incendiárias numa espera dolorosa de anjos prostituídos uma nova ordem económica já não escrevo poesia as palavras autonomizaram-se soltam-se das folhas de papel caem dos outonos como árvores arrancadas do meu peito folhas com seiva acre plantadas em caixas de cimento caiadas com o leite materno da terra amada nunca me vi a teu lado companheira fiel de longos serões de solidão em jacto constante rio imenso lançado nos desfildeiros no capelo das ondas no teu cabelo sedoso da memória de há vinte anos ou trinta ou de sempre ou ainda antes do pecado original leio as viagens e escrevo o universo todo um dia hão-de escrever-me num folego só como eu queria e o papel não suportava pela fragilidade e simplicidade das folhas sinceras há quem não suporte a sinceridade de um rabisco de criança tal como o escrevo hoje vou pecar todos os dias em busca dessa salvação sublime da água limpa com que lavo o corpo da vida e tu meu amor de ontem de hoje de nunca mais escoltas-me a alma com os teus braços envolventes da morte que me visita tentando vender a sua fórmula milagrosa e me promete descontos em bordéis lisboetas porquê lisboa se me perco sempre longe dela dentro da minha cabeça eu digo-vos somos um povo com sonhos amputados e uma fome enorme de infinito

sábado, 19 de setembro de 2009

MESA DE CAFÉ

Um dia um rapaz conheceu uma rapariga. Não se conheciam de parte alguma. Depois começaram a encontrar-se numa mesa de café. E foi como se os seus dois mundos se reunissem a essa mesa. Ela bebia uma chávena de chá, aromático, ele um licor forte, alcoólico. E falavam de histórias de vida, em passados cruzados, de estradas e dos seus acidentes, da descoberta das cidades, das propriedades terapêuticas do ar, de aventuras, da maresia. Ele começou a apreciar-lhe os gestos do corpo, a expressão das mãos sobre a mesa. Mãos moldadas pelo trabalho, fortes e determinadas: como ela. Ele tinha mãos pequenas, dedos finos talhados para a escrita, mas nunca lhe dera a entender essa sua perspectiva do mundo. A única escrita que ela lhe conhecia eram as palavras soltas, aéreas, à volta daquela mesa. Havia ali, ao redor da mesa, à volta das palavras e nos gestos dos corpos um mundo em construção.
Pensava ele.
Cada vez que se sentavam a essa mesa, era como se outros mundos quotidianos se fechassem para sempre.
Naquele balão de noite insuflada, tudo parecia tão nítido como num sonho.
E durante o dia ele transportava-a na cabeça (agradava-lhe a sua companhia) e assim os seus dias passavam sem dar por isso. Os dias começavam-lhe a fazer sentido.
A rapariga, começou a não aparecer ao encontro da mesa redonda, receando que a pouco e pouco ele pudesse gostar verdadeiramente dela.
Ela deixou de aceitar qualquer convite, fechou-se de novo na sua vida quotidiana, de gestos repetidos e seguros, que lhe davam toda a aparência de segurança que ele adivinhava no seu olhar doce.
Ao escrever estas linhas, o rapaz, procurou incessantemente um fim para a história, que os conseguisse sentar de novo à volta daquela mesa mágica, mas não foi possível. Enquanto rematava a última frase, levantou os olhos momentaneamente do papel e estava uma rapariga na mesa do lado.

ANDO EU AQUI

Ando pr’aqui às voltas, mais reviravoltas,
Já pareço um daqueles fazedores de livros, desconstrutores,
melhor dizendo.
E no texto circular, em forma de onda,
perco-me no lábio dela, no teu lábio,
que me anuncia o sexo bom.
Ou então vou vadiar mais um pouco na baixa, com pombos
e excrementos empoleirados nos outdoors.
Nesta altura há-os dependurados das ruas estreitas,
nas ruas largas e rotundas com caras gigantes sem olhos.
Vazaram-nos como urnas despejadas,
mas dos orifícios não fluem lágrimas,
Natural que assim seja. Quem lidera não se emociona.
Isso é para os poetas, gente abjecta que ainda sente,
e sonha e amanhece sem noite dormida.
E fode e come e resplandece de peito nu,
e vibra ingenuamente ao som das palavras.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

SONO

Quando não escrevo, estranho esta cabeça equina.
Quando as palavras não beijam o papel da minha pele,
Adormeço. Entro no sono profundo dos pássaros nos ninhos.
Sobe-me à cabeça um novelo irreal.
O Pacheco anda-me na cabeça, voa de encontro
às estantes desarrumadas deste ninho.

Hoje há um voo dentro de mim, igual a todos os bandos
de libertinos, que sobreviverão à minha morte.
A boca vai ruminando a literatura clandestina.
Ingerindo letargia até atingir o climax da noite.

Bebo-te a boca, a língua, o sexo ovulado.
Troco-te por um negócio de cama desalinhada,
A minha sede apetece-te tocá-la.

A seda desenhada na pele de vinho,
Abraças-me e a madrugada entra-me
de rompante num corpo verde de seiva matinal.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

RUA OBLÍQUA

Desci a rua, fui a um bar: Marula. Ou talvez não fosse um bar. O balcão era em forma de barco e os clientes atiravam setas uns aos outros, até acertar no alvo. Bebi um copo de fogo e a minha alma ardeu momentaneamente, ou talvez as labaredas fossem mais prolongadas. No fundo do balcão uma jovem loura enverga um vestido de xadrez. Podia dar-lhe xeque-mate em dois lances. De seguida entrou um homem calvo, decidido. Calvo e decidido a beijá-la na boca do meu fogo. Ela pareceu-me não jogar bem e as mãos do homem embrutecido movimentavam-se no tabuleiro macio, de encontro ao balcão. A perna dele pressionava-a de encontro ao balcão e eu bebo mais um cálice de fogo.
As horas passam, mas estou lá há menos de vinte minutos. Os dardos cruzam-se à minha frente em trajectórias oblíquas, desafiando as bolas de fogo lançadas no hálito das bocas. Um dente de ouro reluz de encontro à lingua da loira. A bola de fogo torna-se incontrolável e o barman afunda-se um pouco mais no seu barco. Senta-se e fuma um cigarro. O alvo anuncia-se vitorioso e eu volto a casa atravessando as ruas estreitas, de luzes amareladas. Talvez vá dormir um pouco: ou cobrir.

sábado, 12 de setembro de 2009

CROW (raven)


Meu Corvo mestre,

Teu manto de penas arrastas

Sobre o meu corpo despido.

Espero-te à noite

Já não faço sentido.

Estás bem alto na árvore do céu

Negro sangue é o teu. Que tenho bebido,

do cálice luminoso do tempo

que tenho tido. Do tempo das trevas,

te tenho ouvido.

Tiraste-me aquele pedaço de voz,

imerso na noite.

Onde as tuas asas falavam de versos,

por entre copos redondos de sangue.

Ouço ainda o barulho de chávenas

no toque das mesas.

Uma praia de luzes surge

esfumada no meu sonho.